O RPG de Einstein, Hawking, Dawkins & Shakespeare

O RPG de Einstein, Hawking, Dawkins & Shakespeare

Vou abordar um assunto bem manjado no RPG. Que postura o mestre/narrador adota em relação às regras do jogo? Meu objetivo é classificar os estilos de mestragem e para falar um pouco sobre isso, escolhi algumas personalidades conhecidas para darem “um ponta-pé inicial” no tema. Provavelmente alguns jogadores já ouviram falar das famosas frases de Einstein e de Hawking sobre dados e isto já deve ter feito mais de uma pessoa abordar o tema usando as citações famosas. Resolvi apenas estender um pouco mais a idéia para outras importantes personalidades.



O dano é relativo

O dano é relativo

“Deus não joga Dados com o Universo” -Albert Einstein, físico

A frase do cientista alemão ilustra a regra de ouro, i.e., não há regras! O Mestre tem a liberdade de ignorá-las para dar continuidade à história. Estes “roubos” do mestre podem vir “para o bem ou mal”. Para adotar este estilo de mestragem é essencial que se comunique aos jogadores previamente seu intento em segui-lo, por outro lado não precisa ficar rememorando-os todas as vezes que você usar.

O mais comum é que o mestre prefira utilizar este estilo para salvar os jogadores.Ex: Gerando uma quantidade de dano que apenas poria em inconsciência um pc que poderia sofrer um ataque fatal devido ao lance de dados. Não é raro, ocorrer o inverso. Um NPC importante é salvo por uma vitória magistral graças a certas rotinas de combate exclusivas.

O ápice da técnica é quando um evento chave ocorre e o mestre pára o jogo e descreve os eventos ocorridos com NPCs e PCs, tal qual uma cena de CG em games. Sabendo dosar a técnica e tendo o timing para os cortes, quem precisa de dados?

O screen é o meu horizonte de eventos

O screen é o meu horizonte de eventos

“Deus joga dados, mas ELE às vezes nos confunde jogando onde não podem ser vistos.” - Stephen Hawking, físico

A citação do cosmólogo ilustra o uso do screen, a divisória do mestre. Com ela, as anotações do mestre, mapas de masmorras, monstros usados e roladas dos dados, ficam protegidas de “jogadores offeiros“! A divisória é um instrumento de proteção para as surpresas que o mestre prepara para a aventura. Nada mais chato do que os jogadores saberem que aquele corpo cadavérico que se move lentamente em direção deles, não é um zumbi e sim um doppelgänger! Se intenção do mestre fosse intimidar o grupo com o suposto morto-vivo, impassível ao “poder-da-fé”, esta ameaça já era.

No caso dos dados, o mestre tem mais poder de controle com incidentes do acaso. Se ele estiver com muita sorte, poderá maneira um pouco e salvar a pele dos pcs ou dificultar um pouco o combate. Nunca me esqueço de um mestre que tinha, que nunca tirava menos de 40, em 10d6, até o dia que esqueceu o screen, bola-de-fogo nunca ardeu tão pouco daquela vez.

Como lembra o sábio Hawking, “Deus nos confunde, às vezes“. Se todas as suas jogadas forem secretas, não haverá diferença entre a regra de ouro e o uso da divisória, principalmente se você for muito dependente da alteração do resultado dos dados.

Pensotopia é o meme da vez

Pensotopia é o meme da vez

“Um universo com Deus seria bem diferente de outro sem. A física, a biologia de onde há um Deus está obrigada a ser diferente”. -Richard Dawkins, biólogo.

O ateu militante e renomado cientista empresta-nos um pouco da sua sabedoria. Se a diferença entre o jogador e o narrador é que este é como um deus para o cenário, mas Deus não existe, logo o narrador é um jogador também. O mestre deve, assim como os jogadores, seguir as regras pré-estabelecidas contidas no manual do jogo. Afinal o mestre tem a função de inventar as estórias não os resultados, essencialmente todos estão jogando o mesmo jogo.

Apesar de ser muito fácil para o mestre manipular o jogo, devido às características inatas do cargo, ele não burlará as regras, nem os resultados dos dados. Um mestre que respeita todas as regras do jogo acaba por ter total confiança dos jogadores. Contudo este estilo exige um bom “jogo-de-cintura” e conhecimento das regras para lidar com  advogados-de-regras, que costumam encostar o mestre na parede. Se o mestre segue a risca às regras, fatalmente o jogador-advogado vence ( mesmo perdendo tempo enorme na sessão) e um desafio difícil acaba sendo superado fácil devido a alguma estratégia não-prevista.

Adeptos do estilo Dawkins de jogar têm que ficar atentos às probabilidades (sorte não existe para os céticos). Combates homéricos podem ser reduzidos à piadas e batalhas insignificantes à carnificinas. Como a intenção é levar o jogo para frente, afirmo que a morte de algum pc poderá ser pior do que uma vitória fácil.

Macbeth prepara uma magia enquanto Rei Lear ataca...

Macbeth prepara uma magia enquanto Rei Lear ataca...

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia” - William Shakespeare, dramaturgo.

Para concluir, escolho a personalidade que tem mais a ver com RPG dentre os selecionados, afinal Shakespeare foi ótimo para construir personagens e montar tramas envolventes, que são relidas até hoje. No mundo do role-playing, o mestre não poderá ficar preso apenas à decisão de seguir, ignorar ou ocultar rolagens de dados, o mestre poderá muito mais!!! O mestre poderá criar regras próprias!

Regras-da-casa são elementos quem não podiam ficar fora do texto. Ao invés de ficar esperando que alguém lance um complemento para o seu jogo favorito, você, como narrador, poderá completar “o buraco” que falta no sistema. Com a experiência de quem já fez muito isto, aconselho a sempre discutir as regrinhas, bem antes de aplicá-las, com os jogadores. Nada mais chato que uma tábuas sagradas aparecer na hora mais inoportuna, justamente para tornar uma situação que já não era favorável, mais desfavorável.

Regras caseiras precisam ser erga omnes, afetando inimigos e aliados. Também é preciso avaliar a utilidades delas em longo prazo. Regras de mutilação, por exemplo, afetam os jogadores todos os dias, como os inimigos iram morrer mesmo, a regra acaba sendo inerte para o outro lado. Reitero que qualquer mudança no sistema seja discutida previamente com todos e consentida que seja implantada, “forçar à barra”, não é o melhor caminho.

Como podem ver, existem vários jeitos diferentes de narrar/mestrar e todos podem ser combinados e dosados do melhor jeito que lhe convier. Tendo um pouco de bom-senso, ouvindo os clamores da platéia e fazendo “ouvido de mercador” para algumas críticas inoportunas, os jogos poderão ficar divertidos com qualquer estilo de mestragem.

 

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15 Comentários para “O RPG de Einstein, Hawking, Dawkins & Shakespeare”

  1. Arcano diz:

    Muito bom artigo!
    Essa idéia de classificar os mestres com estereótipos fora realmente boa. Dá até pra se identificar com alguns, e zoar outros mestres perante as suas ações..hehe!

  2. Rune diz:

    Parabens, o texto esta muito bom, a ideia de usar frases famosas para caracterizar cada estilo foi muito boa.

  3. covildomago diz:

    Posso lhe perguntar uma coisa?
    Como faço para colocar ‘Continue lendo este post..’ ?
    Não achei ferramenta no wordpress que o fizesse.
    Obrigado, amigo.
    Abçs.

  4. Daniel R diz:

    Vai parando em cima dos botões no painel de postagem do WordPress, e ele vai dizendo a função. Você vai chegar num botão que diz “inserir a tag mais (more)”. Ele é o 12º botão na caixa cinza, da esquerda pra direita. O atalho pra ele é alt + shift + t.

  5. Tsu diz:

    Muito legal a comparação do escudo do mestre com a frase do Stephen Hawking!

  6. covildomago diz:

    Obrigado, Daniel.
    Quanto à notícia, muito interessante.
    Abçs.

  7. Maurício Linhares diz:

    Eu acho o estilo Einstein meio complicado de se aplicar sem fazer os jogadores se sentirem “presos” num fan-fiction do mestre, é uma coisa que tem que ser usada com muito cuidado pra não acabar com a diversão do jogo.

  8. Arquimago diz:

    LEgla, gostei da juntção ^^

  9. Haja liberdade poética para sua interpretação de “Deus não joga Dados” do Einstein. O que ele queria dizer é exatamente o contrário, que há regras!

    Mas, de qualquer forma, ótimo artigo. =)

  10. Talude diz:

    Lembro que as duas primeiras frase saíram num Dicas do Mestre da Dragão Brasil, mas com outra abordagem.

  11. Pensei exatamente o mesmo, mas aqui estão mais direcionadas, mas explicativas…

    ótimo texto…

  12. Danielfo diz:

    Agradeço os elogios de todos!

  13. Danielfo diz:

    Eu sou uma mistura de Dawkins com Shakespeare.

  14. Danielfo diz:

    O sentido é poético mesmo Max. Imagine só um físico dizer que não existem leis? Eintein iria se aposentar em um escritório de patentes.

    Porém, de certa forma, ele estava indo contra as regras sim! Como ele passou a vida “jogando” contra a teoria quântica*, que melhor descreve o mundo sub-atômico, ele estava indo contra as regras!

    Além disso nada melhor que o Pai da Teoria de Relatividade para endossar o exemplo da regra de ouro! Se o espaço-tempo é relativo, e a ordem dos eventos dependem do observador, o alemão jogou uma bomba em cima das Leis Clássicas da Física (o que fiz foi uma analogia com as Leis do RPG).

    Acho que eu fui apenas semi-poético.

    *Apesar de jogar contra, Einstein foi uma grande colaborador para os avanços da quântica, justamente por conta dos seus questionamentos em relação à nova teoria.

  15. Danielfo diz:

    E só complementando, não confunda as regras da RPG com as da Natureza.

    Basicamente as regras do RPG se resumem a rolar dados. E se parar de rolar dados, temos a regra de ouro. Com Einstein era contra a aleatoriedade da quântica, ele era contra estas rolagens de dados misteriosas da natureza.

E você, o que pensa?