Resenha: Pendragon

Resenha: Pendragon

pendragon

Atendendo a um milhão de pedidos que foram feitos (ok, devem ter sido uns três), hoje farei minha primeira resenha de um jogo de Fantasia Medieval: Pendragon.

O jogo não é muito conhecido no Brasil, mas é muito bem conceituado lá fora, tanto que já está na 5ª edição. A autoria é de de Greg Stafford (Call of Cthulhu, RuneQuest, Nephilim, HeroQuest e muitos outros). O jogo se baseia nas lendas Arturianas e tem como foco reviver a glória dos cavaleiros em uma Bretanha fantástica. Como eu tenho na minha coleção apenas a 1ª edição (lançada em 1985) e a 5ª (de 2005) e não conheço bem as edições entre uma e outra, esta resenha não se aterá muito a edição alguma.



A primeira edição vinha em uma caixa contendo dados e com dois livros de cerca de cento e vinte páginas cada, as demais passaram a vir em volume único variando de duzentas a duzentas e trinta páginas, sempre com a capa colorida e o interior monocromático. Todas as edições de Pendragon são acompanhadas por uma belo mapa da Bretanha.

CENÁRIO

Ao contrário dos jogos de fantasia mais comuns, onde há várias raças, classe e opções de alinhamento, em Pendragon a idéia é criar um cavaleiro, escudeiro ou nobre e abraçar os ideais de justiça, honestidade e coragem, com o objetivo de se enfrentar os perigos mortais narrados em lendas Arthurianas.

É claro que vez por outra um jogador quer jogar com um mago ou druida, mas este definitivamente não é o escopo do jogo e isto fica claro ao final de cada aventura, quando chega o “inverno”, que no jogo é a época em que o personagem volta à sua casa para resolver questões domésticas, criar seus filhos, administrar suas terras, etc. Em termos de jogo, entre uma aventura e outra, geralmente se passa um ano, de modo que o personagem está sempre envelhecendo e amadurecendo, até um ponto em que terá de se aposentar e, se tiver um filho, este vai assumir seu lugar (e assim sucessivamente, por gerações). Dinastias se expandem, alianças são forjadas e quebradas, lealdade testada, conexões entre famílias desenvolvidas… Tudo isso conforme os anos passam, com uma geração assumindo quando a outra deixa a cena.

Dito isto, asseguro que Pendragon, ao contrário da maioria dos jogos de Fantasia Medieval, é um jogo que se foca menos no que os heróis fazem e mais no que eles são. Embora os heróis vivam aventuras e façam grandes coisas, o legal mesmo do jogo são as relações dos heróis entre si, seus parentes, amigos, família – por isto os cavaleiros são o foco do jogo e outro tipo de personagem, no contexto do cenário, simplesmente não tem o necessário para desenvolver relações tão intensas.

A despeito de todos os personagens serem cavaleiros, pode ter certeza de que cada um deles é singular. Pendragon tem um sistema de “Paixões” e “Peculiaridades”, que usando palavras chave e valores, é o que define cada personagem e diferencia um do outro. Este é o óleo que azeita a engrenagem do jogo e culmina em um cavaleiro crível. Um personagem pode ser “justo “e “valoroso”, outro um “pecador” pagão com um “ódio” secreto pelos saxões ou mesmo um companheiro de grupo, outro ainda, um cristão “pio” e “casto” ou ainda “cruel” e “indiferente” quanto a sua linhagem. Mas é claro, no decorrer do jogo, conforme os invernos passam tudo pode mudar, os maiores heróis podem se corromper, os piores vilões se redimir, e, além, filhos podem tentar desfazer o mau dos pais – ou carregar seu legado de bondade ou desejo por dominação. O outro lado da criação dos personagens é chamado de benção por alguns jogadores e inferno por outros: trata-se do desenvolvimento da família, da história da linhagem do cavaleiro e claro, da lenda de seus predecessores mais relevantes. Como já está claro, juntando-se paixões, peculiaridades e o “pedigree”, criam-se personagens únicos.

SISTEMA

O sistema do Pendragon é muito simples e é na verdade uma versão modificada do sistema Chaosium BRP (o do Call of Cthulhu), que mudou pouquíssimo da época de sua criação até os dias atuais. A diferença no Pendragon, é que ao invés de se usarmos o d100, utilizamos o d20 para resolver as ações. As características vão de 1 a 20 e o jogador tem de tirar abaixo do valor para ter sucesso na ação. Mais fácil de entender que Twerps.

Quanto às peculiaridades (“traits”) a sacada é o emparelhamento de características, cujos valores somados sempre dão 20. Exemplifico: “Coragem” e “Covardia” são traços emparelhados, se seu herói tem covardia 5, terá coragem 15. Quando um aspecto do traço sobe, o outro decresce. Se a covardia passar ara 7, a coragem desce para 13. Muito simples. No entanto, deixo o alerta de que embora o sistema de características tenha valores para possibilitar que se rolem testes, ele serve muito mais para ajudar o jogador a decidir como o personagem agiria do que para coagir o jogador utilizar seu personagem do modo A ou B.

Se o mestre nota inconsistência entre o valor da característica e o modo com que o jogador interpreta o personagem, basta o mestre ajustar a característica na fase do inverno (e isso rende ótimos ganchos de interpretação, ao estilo “Morwinn, meu velho, você costumava ser mais audaz quando era jovem” ou “Duantilus, meu caro, quem diria que você se tornaria um homem tão altivo olhando para aquele rapaz acanhado de outrora” ). Por fim, quando uma peculiaridade tinge o valor de 16 ou mais, o personagem passa a ser “famoso” por esta característica (fulano é piedoso, sicrano é valente, beltrano é religioso) e isto acaba dando bônus às ações do personagem ligadas, mesmo que indiretamente, àquela característica. O sistema, como se pode ver, é simples e instiga a interpretação.

Enquanto as peculiaridades afetam o caráter do personagem, as paixões refletem as emoções deste. As paixões, não são emparelhadas, mas também visam guiar o comportamento do personagem. Aqui, no entanto, se busca estabelecer os anseios e inspiração de cada personagem. Deste modo, por exemplo, o jogador de um personagem que tem a entre suas paixões a lealdade, pode pedir para rolar um teste antes de sair em uma busca pelo Graal para salvar a vida de seu suserano e, se for bem sucedido no teste, receberá bônus nas provações relacionadas esta busca, no entanto, se falhar, o efeito será contrário e ele pode achar que a busca é inútil, recebendo redutores na mesma medida. Além disso, se a busca falha, o personagem pode ser atingido por uma melancolia que o acompanhará ate se redimir ou até o fim de seus dias. Em todo caso, novamente, mais possibilidades infindas para interpretar.

O sistema de combate segue a mesma simplicidade e elegância do sistema de peculiaridades e paixões, bastando opor um teste a outro. O sistema de danos críticos abre espaço para golpes de sorte, onde Davi pode abater Golias. O jogo traz ainda um sistema para combate em massa, que funciona muito bem para lutas entre grupos pequenos, mas fica um pouco complicado quando a escala da batalha é muito grande em decorrência da necessidade de se administrar coisa demais. Por fim, a lista de perícias é muito grande, bem ao estilo Chaosium, tendo de tudo um pouco.

CONCLUSÃO

Pendragon é um jogo simplesmente lindo e faz um ótimo trabalho ao passar aos jogadores ar de se estar vivenciando uma lenda Arthuriana. Quem já leu livros ou assistiu filmes sobre o tema, vai se sentir dentro das lendas. O jogo não é para qualquer grupo, pois requer grandes doses de interpretação, alguma inspiração para a criação do “background” dos personagens, além disso, é necessário que ao menos um dos jogadores mantenha um registro do que se passou em cada aventura (pois uma geração constitui parte da lenda que inspira a próxima).

 

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13 Comentários para “Resenha: Pendragon”

  1. Daniel R diz:

    Mas que jogo do baralho, rapaz. Um dia eu animo de ler jogos em inglês pra mestrar isso. =D

  2. Luiz RGF diz:

    É mesmo. É um dos jogos de fantasia medieval mais legais em que já coloquei as mãos.

  3. Meus Deus! Que seção nostalgia!

    Como eu joguei este jogo quando era muleque. Lembro de um personagem que morreu numa invasão e acabei indo até a sua terceira geração.

    Bons tempos!!!

  4. Maurício Linhares diz:

    Cara, só queria ter tempo e dinheiro pra poder jogar coisas como isso, a idéia dos personagens envelhecerem de verdade dentro do jogo é muito interessante, dá todo um background mais interessante, imagina que o pai começa a luta pra criar um reino e só duas gerações depois, o neto finalmente consegue erguer o castelo e reunir o povo, pano pra manga de muita história do baralho :)

    Se eu for a falência, vou botar a culpa no Luiz (que já me vez comprar Serenity….).

  5. Maurício Linhares diz:

    Acho que eu já sei a pergunta, mas os cenários são sempre a Britânia fantástica ou tem outros lugares ou outras culturas sendo tratadas também no jogo?

  6. Luiz RGF diz:

    Maurício, as primeiras edições são mais abrangentes quanto ao local de origem dos personagens, nas mais recentes o foco é realmente a Bretanha. De todo modo, a localidade “oficial” das aventuras é a Bretanha, embora muitos dos desafios sejam provenientes de outras terras.

    Parabéns pelo Serenity!

  7. Maurício Linhares diz:

    Luiz, procurei na Amazon e não tem, no site da White-Wolf também não tem nada, ele ainda é editado ou foi deixado de lado mesmo?

  8. Luiz RGF diz:

    Acho que está parado, talvez você encontre algo no ebay. Muita coisa da minha coleção está fora de linha hoje em dia.

  9. Elisa diz:

    Caras, eu queria ter dinheiro como vocês dois um dia… =O

    Gostei da idéia do jogo, mas não sei porque eu achava que seria mais legal.

  10. Mamangava diz:

    Adoro jogos “narrativistas”, e fiquei doido para comprar-mestrar-jogar isso aí!
    Obrigado por nos mostrar essa preciosidade “do baralho”!

  11. Rey Ooze diz:

    Eu acho que é a primeira vez que vejo uma resenha de Pendragon!

    é como dizem, blogosfera é melhor que revista!

    PArabens !!!

  12. Arquimago diz:

    Boa resenha! Seria legal, jogar de uma geração para outra!

  13. edy abreu diz:

    Caramba, deu vontade demais de jogar esse!
    Jogar com o filho do avô, pai do neto!

  14. [...] vejo poucos RPGs que tenham esse viés. Dentre os de mesa, eu consigo lembrar do Pendragon, onde passa muito tempo entre as aventuras e você consegue até mesmo jogar com os seus [...]

  15. [...] vejo poucos RPGs que tenham esse viés. Dentre os de mesa, eu consigo lembrar do Pendragon, onde passa muito tempo entre as aventuras e você consegue até mesmo jogar com os seus [...]

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E você, o que pensa?