Resenha: Serenity

Resenha: Serenity

Serenity

Olá pessoal, espero que o fim de semana de vocês tenha sido bom como foi o meu! Pois bem, hoje vou tratar de um dos ilustres desconhecidos da minha coleção de jogos de RPG.

Apesar de ter planejado inicialmente postar esta semana uma resenha Pendragon (jogo baseado nas lendas Arthurianas), resolvi me manter no meu gênero predileto, o sci-fi, e postar uma resenha do Serenity. Este jogo, que é de autoria de Jamie Chambers (Dragonlance Campaign Setting, Bestiary of Krynn, Battlestar Galactica Role Playing Game) é apresentado em um livro de 230 páginas, com capa dura e internamente colorido, montes de fotos e ilustrações e até inclui um pequeno glossário de temos em chinês (pois no cenário os personagens se comunicam em inglês, mas praguejam e xingam em chinês).



Sempre fui cético quanto a qualidade de jogos de RPG baseados em filmes, séries ou desenhos animados. Fora os livros do Star Wars RPG e os do Robotech (dos quais ainda pretendo fazer resenhas), tinha a postura de não comprar mais nenhum. Ocorreu que vi o tal do Serenity a venda no e-bay, a temática pareceu legal, o livro era  muito bonito e estava no precinho. Comprei no escuro mesmo. Surpreendi-me ao descobrir que era baseado na série de ficção Firefly.

Mas foi uma surpresa boa, muito boa. Comecei a ler o livro e constatar que tinha material de primeira nas mãos, o que era de se esperar, afinal é um jogo que venceu o “Origins Award”. Mesmo assim, não estava pegando as sutilezas da coisa. Acabou que baixei a série e o filme, assisti tudo e recomecei a ler o livro. Ai sim o carro andou…

O motivo pelo qual tinha me comprometido a não investir mais em RPGs baseados em filmes e etc era principalmente a limitação do alcance dos personagens dos jogadores no contexto estabelecido no cenário. Que vilão em Star Wars seria mais sombrio que Darth vader? Que herói maior que Luke? Em duna, quem seria mais grandioso que Muadib? Que aventureiro seria mais ousado que o Indiana Jones? Que piloto bateria a Starbuck no Battlestar Gallactica?.. por ai vai.

Ocorre que no Serenity, não há heróis. Todas as personagens são comuns, cheias de defeitos e falhas de caráter. Brigam, matam, erram e fazem coisas boas também, mas nem sempre. Em Serenity, os maiores ícones do cenário base podem perfeitamente dividir seu espaço e mesmo ceder lugar aos personagens que o jogador criar, pois há lugar para isto e o sistema do jogo em si é voltado para este objetivo.

Por falar em sistema, este é uma verdadeira jóia. Utiliza todos os dados, do d2 ao d12, mas consegue ser simples e intuitivo. Os atributos são apenas seis (força, agilidade, vitalidade, atenção, inteligência e força de vontade) e as perícias seguem grupos gerais, dentro dos quais o jogador pode criar qualquer especialidade que lhe venha em mente. Enquanto atributos variam do d4 ao d12 (ao menos no início do jogo), os grupos genéricos de perícia ficam entre o d2 e o d6 e as especialidades começam a ser computadas a partir do d8 e vão até d12 (novamente, no início do jogo). Para fazer um teste, rola-se o dado equivalente ao atributo junto ao dado equivalente a perícia. Mais simples impossível.

O jogo conta ainda com um sistema binário de pontos de vida que é composto de pontos de atordoamento e ferimentos. Personagens em brigas de bar provavelmente vão desmaiar antes de morrer, enquanto os metidos em tiroteios têm chances de mal ficarem zonzos antes de se verem mortos. Não vou entrar em detalhes, mas atesto que é um sistema genial e inovador. A última vez em que considerei que um sistema era bom assim foi em 1995, quando li o Grups pela primeira vez. Não sei se funcionaria tão bem em outro cenário, mas para o contexto do jogo é excelente.

Já que toquei no assunto, o cenário é outra jóia e vou falar dele antes de falar do verdadeiro foco do jogo, os personagens. A humanidade esgotou todos os recursos naturais da Terra, tornando o planeta imprestável e o deixando o à beira de um colapso. A solução foi abandonar a Terra em arcas espaciais com capacidade para milhares e milhares de pessoas. As arcas partiram do planeta em velocidade sub-luz e em sua dianteira mandaram naves autômatas com a finalidade de terraformarem planetas em um sistema muito distante.

Três gerações depois, as arcas começaram a chegar aos planetas que ainda estavam nos estágios finais de terraformação. Eram dois em princípio mas logo terraformaram um terceiro (e suas luas). Estes três planetas seriam conhecidos dali para frente como o “Núcleo” e lideram o sistema (que o jogo trata por ‘Verse). Com o tempo, outros planetas e luas foram sendo terraformados e na época em que o jogo se passa, há cerca de 20 ou 30 planetas habitados e incontáveis luas, estes são os planetas (e luas) da periferia e da fronteira.

Quanto mais longe do núcleo, mais difícil a vida, de modo que há planetas altamente“hi-tech” e planetas onde a vida se parece com o velho oeste, com direito a xerifes, carroças, cavalos e tudo mais. Estes planetas mais distantes até bem pouco atrás eram independentes e após uma longa guerra o a aliança (formada pelos planetas centrais e mais alguns da periferia) tomou controle deles. O jogo se passa sete anos após esta guerra e ainda há muitas cicatrizes emocionais e físicas em todo o cenário. Os “casacas marrons” (que lutaram pelos independentes – e perderam a guerra) e os “soldados da aliança” (que lutaram pelos planetas centrais) definitivamente não se batem muito…

Em meio a isto tudo temos as estrelas do jogo, os personagens dos jogadores. E este é realmente um jogo onde o foco são os personagens. Há uma infinidade de qualidades e defeitos (maiores ou menores) e cada personagem tem de ter ao menos uma qualidade e um defeito. Como é comum que este tipo de coisa seja esquecida durante o jogo, o sistema traz outra inovação que realmente reforça a afirmação de que o foco é o personagem: os “Plot points”. Estes são verdadeiros pontos de trama, pois o jogador os ganha como prêmios por interpretar (e em especial por interpretar as desvantagens do personagem em momentos críticos) e por interagir com o cenário e demais npcs (a própria nave, por sinal, é um npc , com qualidades, defeitos, temperamento e tudo mais).

Estes “plot points” servem para tudo, desde melhorar um dado (tornar um d6 em um d8 ou d10, por exemplo), para melhorar um resultado (cada ponto pode aumentar em um a soma do valor dos dados após o teste), para absorver dano (com uma boa explicação narrativa, o jogador pode dizer que seu personagem na verdade não levou aquele tiro mortal no peito – a bala foi parada por seu crucifixo de estimação) e ainda para fazer pequenas mudanças na trama (se a nave quebrou, por exemplo, com alguns pontinhos o personagem pode se lembrar de um velho conhecido que mora por perto e é especialmente bom em mecânica…). Por fim, se sobrarem “plot points” depois do jogo, estes se tornam XP. Com um sistema destes não há quem não interprete! Já mestrei Serenity várias vezes e até os jogadores mais acanhados mandam ver na interpretação e os “off” são coisa bem rara.

Como eu disse no acima, a nave é construída exatamente do mesmo modo que um personagem, inclusive utilizando a mesmíssima planilha, no entanto tem suas qualidades e defeitos próprios e alguns divididos com os personagens normais. O livro traz regras para cálculo de tonelagem e velocidade, mas tudo bem simples e fácil de se entender (mesmo assim completo), como o restante do material do jogo.

É uma pensa este jogo ser difícil de obter, pois ele é muito bom. Se tivesse sido lançado por uma editora maior teria sido um grande sucesso. Recomendo a qualquer um sem medo, se você tiver a chance de jogar, não a perca e se tiver a chance de comprar e ter na sua coleção, não vacile!

 

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12 Comentários para “Resenha: Serenity”

  1. Muito legal encontrar outro browncoat. Adoraria jogar esse RPG, eu já li ele e obviamente conheço a série e o filme (acho que já vi umas 4 vezes cada). Acho que foi no episódio 1 ou 2 do rolando20 que eu faço um referência a esse RPG.

    Meu personagem Karus Shadamash Dragonborn warlord de D&D foi inspirado bastante no Mal.

    Boa sorte nas suas mesas, adoraria poder jogar esse RPG um dia.

  2. E pra quem se interessar, temos fichas disponíveis para Serenity RPG no http://www.fichasderpg.com !

    Abraços!

  3. valberto diz:

    Serenity é um rpg encorpado e muito bom, que faz jus à série de Tv fantastica de onde ele teve origem. Entretanto, eu acho que foi um erro trabalhar todo um sistema novo com ele. Poderiam ter usado o d20 OLG ou coisa assim e ficaria até mais fácil de jogar.

  4. Luiz RGF diz:

    Pois já deixo aqui meu convite para jogar a quem quer que deseje. Moro em João Pessoa, mas viajo bastante para minha terra natal, o Rio Grande do Sul e para o Mato Grosso, onde mora meu pai e havendo quem queira jogar nestes lugares só precisa avisar!

    Valberto, eu discordo de você. Acho este sistema muito bom ,extremamente bem ajustado ao cenário, como eu já disse na resenha, uma verdadeira jóia. Não gosto muito do d20, mas creio que o Fate 3.0 (o sistema do Spirit of the Century) ou o Fudge original funcionariam muito bem com o cenário.

  5. Maurício Linhares diz:

    Cara, muito interessante mesmo, gostei dessa idéia de plot points, isso realmente incita os jogadores a interpretar, ainda mais os defeitos, dentro das aventuras.

    É uma pena também que a série tenha sido cancelada e o filme tenha sido um “desastre” de bilheteria :(

  6. Italo diz:

    Uma alternativa interessante para preencher o vácuo que existe em todos os Órfãos de Firefly. (que drama! =P)

    O Cenário de Serenity realmente tem essa vantagem (sobre Star Wars, por exemplo) de não ter um plot com início e fim determinados. Mesmo a origem dos Reavers, que é revelada no filme, não limita muito a possibilidade de outras tramas que podem ser desenvolvidas no cenário. (mas se eu fosse o mestre, na minha história a origem dos Reavers não seria conhecida pelos personagens – ainda =D)

    O sistema parece bem diferente do que estou acostumado. Fiquei curioso pra saber como funciona na prática.

    Saudades da tripulação da Serenity… =\

  7. Ighor diz:

    Poww muito bom post… eu ate tenho esse livro em pdf e pensei em mestrar uma campanha ambientada no universo firefly… mas ia adptar pra gurps pq fiquei com preguiça de aprender todo o novo sistema… nunca pensei q ia ver um post sobre o Serenity ainda mais de alguem q comprou o livro primeiro e viu o seriado depois.. kkkkkkkkkk

    vou repensar minha campanha com o sistema novo :P

  8. Elisa diz:

    Eu adorei a série, o filme e adoraria jogar esse jogo. Quem manda eu morar tão distante na época que você mestrou? Agora que moro perto, nem me convida de novo, né, Luiz?

  9. Luiz RGF diz:

    Injustiça Elisa! Vivo chamando você pra jogar!
    kkkkk

  10. Daniel R diz:

    Também quero jogar! =P

  11. insoneo diz:

    Muito boa a resenha e o cenário Luiz. Meu deu muita vontade de ler. Sobre Sci-Fi, gostaria bastante de ver uma resenha de Fading Suns, meu rpg sci-fi preferido e pouco conhecido no brasil. Sobre sistemas inovadores, me lembro de Heavy Gear, que indico.

    • Luiz RGF diz:

      @insoneo,

      Opa Insoneo! Que bom que gostou da resenha. Meus rpgs favoritos são os sci-fi e eu tenho alguns livros da coleção do Fading Suns aqui na prateleira.

      Vou ver se providencio uma resenha, só não garanto para logo pois faz muito tempo que não mestro FS e vou ter de dar uma geral no livro antes de postar.

      Do Heavy Gear eu não tenho tenho nada. Me lembro que cheguei a jogar rapidinho em um encontro em Porto Alegre, mas foi só isso.

E você, o que pensa?